O Peso da Água
Tomo I | Episódio 1: O Peso da Água
O jovem clérigo sentava-se com a coluna rígida, quase militar. Vestia a túnica branca fechada até o pescoço, suas costuras e bordados em um preto impiedoso, contrastando com a claridade que invadia a cabine do trem. As mãos, apoiadas sobre os joelhos, permaneciam perfeitamente alinhadas. Seus olhos castanhos, escuros e inquietos, voltavam-se esporadicamente para a janela, onde o céu azul abrigava o impossível: uma gigantesca Lótus Branca flutuando na altura das nuvens, um milagre da engenharia que espalhava energia limpa para as cidades lá embaixo.
À sua frente, Karmena era a imagem oposta. A mulher negra, de porte imponente e cabelos brancos soltos, estava esparramada no banco. O sobretudo branco, sem a gola sufocante que ele usava, revelava o vermelho vivo da blusa por baixo — uma escolha de vestimenta que refletia sua liberdade de clériga experiente. Ela mantinha as pernas cruzadas, a bota de cano alto exibindo um salto fino, o queixo apoiado na mão de forma indolente. Seus olhos denunciavam cansaço.
— É uma Lótus Branca — disse ela, a voz grave cortando o zumbido mecânico do trem. — Olha. Na base do cabo que desce para o solo. Estamos indo para aquela cidade.
Sukdo ajustou a gola da túnica, um movimento automático e irritante que ele repetia a cada poucos minutos.
— Mestra — invocou ele, a voz carregada de uma reverência estudada, quase ensaiada.
Karmena soltou um suspiro curto pelo nariz, os olhos nem se voltando para o garoto.
— Você é clérigo agora. Não precisa me chamar assim. Me chama de Karmena. Mestra, não.
Sukdo abriu os braços de forma contida, apontando para as próprias roupas.
— Ainda tenho minhas marcas pretas.
O sorriso de Karmena foi breve, quase melancólico. Ela apontou para a cidade que se avolumava na janela.
— Escolha o que deseja adicionar ao capítulo, sobreviva, e conquiste suas marcas vermelhas. Ali... uma boa oportunidade.
Sukdo engoliu em seco. Por baixo do tecido pesado, seus dedos apertaram o pingente de metal escondido contra o peito. A borda de ferro da lembrança de Valerik marcou a palma de sua mão, mas ele precisava daquela dor. Não vou te decepcionar, ele disse a si mesmo, em silêncio.
O trem reduziu a velocidade com um guincho metálico, desembarcando-os diretamente na praça principal. Para uma cidade sob a Lótus, a escala do lugar era esmagadora; os prédios residenciais de pedra clara se erguiam simétricos, entremeados por jardins verticais impecáveis. A maquiagem verde do mundo era perfeita. O cabo colossal da Lótus descia das nuvens e fincava-se no centro exato da metrópole, projetando uma sombra fria e metálica sobre as pessoas. Sukdo percebia logo de cara a discrepância: civis exaustos negociavam em barracas ordenadas nas margens da perfeição arquitetônica.
Sukdo sentia-se um intruso em sua túnica branca impecável, sob os milhares de metros cúbicos de metal branco flutuante no céu.
— Sukdo — a voz de Karmena o trouxe de volta. Ela caminhava um passo à frente, os saltos finos batendo ritmadamente contra a pedra da praça, exigindo espaço sem pedir. — Consegue ver a capela longe, no fim da avenida principal?
— Sim — ele respondeu, apertando os olhos para ver a silhueta distante do campanário, articulando cada sílaba.
— Ótimo — disse Karmena, parando no meio do fluxo do mercado. — Vá até lá e procure o irmão Elias. Diga que chegamos. Eu vou buscar informações com alguns contatos por aqui. E garoto... não arrume problemas.
Sukdo assentiu, sentindo um peso repentino de estar desacompanhado assim que a figura imponente da clériga desapareceu na multidão.
Ele ajustou a postura e começou a longa caminhada pela avenida de paralelepípedos. O trajeto até o campanário descascado levou quase quarenta minutos. Enquanto se afastava do centro comercial e entrava em ruas mais estreitas, o silêncio tornava-se opressivo. Ele precisava desviar de carregadores exaustos e de crianças curiosas que paravam suas brincadeiras na terra batida para observar a sua túnica imaculada. Os olhares dos civis misturavam medo reverencial e uma ponta de ressentimento. Sob o brilho ofuscante da Lótus Branca, os cantos escondidos da cidade pareciam ainda mais sujos e esquecidos. Sukdo seguiu em frente de queixo erguido, apertando os punhos para disfarçar a insegurança de quem operava no campo pela primeira vez.
Quando finalmente alcançou o destino, encontrou uma estrutura modesta, espremida de forma quase invisível entre dois imensos galpões industriais de tijolos escuros.
O interior cheirava a cera queimada e poeira antiga. Não havia o luxo dos grandes templos da capital, apenas bancos de madeira rústica e um símbolo da Ordem talhado grosseiramente na parede do altar, banhado pela meia-luz dos vitrais rachados.
Um homem idoso espanava os bancos. Ele vestia roupas simples de lã, sem os tecidos pesados ou as marcas vermelhas dos clérigos.
— Com licença — Sukdo pigarreou, assumindo sua postura militar. — Sou o clérigo Sukdo. A Mestra Karmena mandou avisar que chegamos. O senhor é Elias?
O velho sorriu, as rugas se aprofundando ao redor dos olhos bondosos.
— Eu mesmo, garoto. Bem-vindo. Nossa rede de informações e abrigo está sempre aberta para os Investigadores.
Sukdo fez uma reverência rígida. Ele olhou instintivamente para os braços do idoso, procurando as marcas de purificação, mas a pele enrugada estava limpa. Elias notou o olhar e soltou uma risada rouca e suave.
— Não procure por Sangue Negro em mim, garoto. Eu sou apenas um homem comum. Nunca fui tocado pelo trauma que forja vocês.
— Então por que o senhor está aqui? — Sukdo perguntou, incapaz de conter a surpresa. Em seu treinamento, os clérigos eram os guardiões, separados dos civis pelo fardo do poder e da dor. — O senhor poderia ser preso pelo Vassalo por abrigar a Ordem.
— Eu poderia — concordou Elias, o sorriso dando lugar a uma expressão endurecida. — Mas o Vassalo nos dá lama para beber e nos faz trabalhar até o osso. A Ordem dos Santos contra as Trevas não luta apenas por feitiçaria, jovem clérigo. Vocês lutam pelo projeto de libertar nosso povo. Se os clérigos arriscam a alma com a corrupção para nos salvar, o mínimo que um velho sem magia pode fazer é manter a porta aberta e o chão limpo.
Sukdo sentiu um nó na garganta. As palavras de Elias reforçavam tudo o que ele queria acreditar. A Ordem era a luz incontestável. Era por pessoas boas como aquele velho que Valerik havia morrido. E era por elas que Sukdo devia lutar, seguindo todas as regras.
Ele abriu a boca para agradecer, mas um estrondo pesado o cortou.
A vibração sacudiu o chão da capela, fazendo poeira cair do teto de madeira. Um grito agudo rasgou o ar vindo da direção da praça.
— Elias, tranque as portas! — gritou Sukdo, puxando uma espada curta debaixo de suas vestes. Ele não esperou resposta e correu em direção à luz do dia.
Ele irrompeu de volta à praça sozinho. Nos fundos, o pátio de acesso ao subsolo da Lótus era protegido por pesadas grades de aço. Quatro homens encapuzados batiam os bastões térmicos nas correntes, as pontas das armas derretendo o metal vagarosamente, enquanto granadas rudimentares explodiam as barracas de comércio para espantar a multidão.
Sukdo avançou. Ele precisava ser perfeito.
Brandiu a espada curta e partiu para o primeiro agressor. O terrorista girou nos calcanhares, muito mais rápido e denso do que os alvos de treino. O bastão térmico assobiou no ar e colidiu com a espada de Sukdo, o impacto enviando um choque elétrico insuportável pelo braço do garoto.
Sukdo recuou, mas o agressor engatou um segundo golpe de baixo para cima. O clérigo tentou desviar usando um passo de esgrima, mas o homem não ligava para técnicas refinadas — ele chutou as costelas do garoto, tirando seu ar, e desceu o bastão incandescente.
O coração de Sukdo disparou. Ele ia falhar.
Antes que o calor do golpe o queimasse, duas esferas lisas bateram nas botas do agressor.
A praça foi imediatamente submersa em uma nuvem química densa, um branco opaco e cegante que sugava o som. Era a fumaça de neutralização da Ordem.
Karmena não entrou lutando; ela rasgou o ar. Sukdo viu apenas a silhueta de sua Mestra no nevoeiro. Com um movimento contínuo de pura inércia, ela desceu a bota no joelho de um terrorista com um estalo doentio de osso quebrando, ao mesmo tempo em que a lâmina de sua espada curta perfurava o ombro de outro, prendendo-o contra o portão.
— Levantem as mãos! — ela gritou.
Sukdo, atordoado e tentando compensar sua falha, ergueu-se de supetão e avançou sobre o homem que estava sendo imobilizado por Karmena. Mas seu avanço desajeitado desequilibrou a postura perfeita dela. O terrorista se debateu, soltando-se por um triz, enquanto os outros dois, percebendo que a Mestra cobria a saída principal, recuaram para a grade derretida e mergulharam desesperados no duto que levava ao subsolo.
— Atrás de mim, garoto! — Karmena rosnou, agarrando a gola da túnica de Sukdo e empurrando-o para a segurança, os olhos faiscando de irritação na fumaça imaculada.
Sukdo sentiu o rosto queimar. Ele havia tentado lutar sozinho e quase morrera; ao tentar ajudar, apenas atrapalhou. A Mestra tinha salvo sua vida e impedido a destruição da base do cabo sozinha, mas a brecha que ele abriu custou caro.
— Eles vão para os painéis! — gritou Sukdo, forçando-se a agir.
Ele correu na direção do fosso, o pingente de Valerik batendo contra o peito. Karmena surgiu ao lado dele instantes depois, os olhos semicerrados em repreensão, mas ela não o impediu. Juntos, desceram as escadas circulares e escuras.
Enquanto desciam pelo túnel estreito e úmido, o silêncio denso foi quebrado pela voz vacilante de Sukdo:
— Eu tentei lutar e só atrapalhei... — ele murmurou, apertando o pingente sob a roupa. O medo de falhar o paralisava por dentro. — O treinamento diz que precisamos ser o escudo perfeito. Se eu não for, pessoas morrem, Karmena. Não sei se tenho força para carregar esse peso.
Karmena parou um instante no degrau, a luz fria de emergência delineando seu rosto cansado. Em vez de uma repreensão severa, ela o olhou buscando dar-lhe uma ferramenta real para não se quebrar.
— Você está focando no próprio ego. O peso do mundo não foi feito para as costas de um homem só. Lembre-se da Cartilha da Ordem, garoto. Livro V, Versículo 33: "A força da alma é inútil se os Moinhos continuam a esmagar os fracos... A nossa ascensão é, por decreto e sangue, coletiva". — Ela voltou a descer as escadas, a voz grave ecoando no fosso. — Não lute para ser um herói solitário e impecável, Sukdo. Lute para ser parte do todo. Essa é a sua única chance de sobreviver.
O subsolo cheirava a ozônio e suor. Não havia apenas máquinas ali. Havia dezenas de pessoas.
Uma família — um idoso de mãos calejadas, duas mulheres e algumas crianças sujas — estava organizada em volta das válvulas de pressão, enchendo cantis e baldes de plástico com água fresca e limpa que escorria dos dutos da Lótus.
Quando Sukdo e Karmena apareceram, a família não os olhou como salvadores. Eles recuaram em terror. Os dois terroristas que haviam fugido agora se escondiam atrás dos moradores, as armas apontadas para os clérigos.
Sukdo ergueu a espada curta, a voz embargada.
— Afastem-se deles! Eles são criminosos! Estão tentando destruir o cabo!
O idoso deu um passo à frente, os olhos brilhando em fúria, e cuspiu no chão, bem aos pés de Sukdo.
— Criminosos? — a voz do homem rasgou o eco metálico da sala. — O Vassalo que controla essa cidade nos dá um balde de lama por semana! A água pura da Lótus vai toda para as fábricas dele! Eles vieram explodir a comporta para que nós pudéssemos beber! Você usa branco, mas sangra pelo Vassalo!
Sukdo congelou.
Sua mente perfeita e matemática entrou em curto-circuito. Aqueles não eram monstros. Aquelas pessoas estavam morrendo de sede. Seu treinamento dizia que a Ordem deveria proteger o cabo e prender os agressores. Mas a humanidade em seu peito gritava.
O que você faria se fosse sua família, clérigo?
Sukdo não moveu um músculo. No campo de batalha, não escolher também é uma escolha. E o custo de hesitar foi alto.
Aproveitando o lapso, o terrorista sacou um cilindro negro e estriado. Sukdo reconheceu tarde demais — um Gerador de Pulso Sônico adulterado. Quando ativado no volume restrito daquele subsolo, ele pulverizaria os órgãos internos de todos. O homem girou a trava do artefato.
Karmena não hesitou. Sem espaço para desarmar o terrorista ou afastar a família, ela jogou o próprio corpo sobre o gerador no momento da ativação. Seu sobretudo branco esvoaçou, e ela canalizou sua Essência para criar uma membrana protetora, um bolsão de vácuo ao redor de si mesma.
O choque foi avassalador. O ar pareceu rasgar, estilhaçando os vidros de proteção da Lótus. A força que deveria ter matado dezenas foi absorvida pelo peito de Karmena. Ela engasgou, sangue negro brotando instantaneamente das narinas, e desabou inerte no chão frio.
— Mestra! — Sukdo gritou, caindo de joelhos ao lado dela. O pulso dela era fraco. Ela havia pago pela fraqueza dele.
O choque não durou. Cientes de que a clériga mais forte havia caído, o pânico tomou conta. Moradores e terroristas, desesperados para não morrerem de sede, avançaram para o painel de controle principal da Lótus, marretas improvisadas erguidas.
A mente matemática de Sukdo mapeou as consequências em um milissegundo: se quebrassem o painel da tubulação mestre, a pressão brutal de toneladas de água não apenas afogaria todos no subsolo instantaneamente, como solaparia o solo, arrastando o quarteirão da praça acima para um buraco.
Eles bateriam em cinco segundos. Quatro.
Você prometeu ser forte, ecoou a voz grave de Valerik.
Sukdo saltou sobre as tubulações, postando-se de costas para a multidão enraivecida. Ele não puxou a espada; ele espalmou ambas as mãos nuas no coração de aço do painel principal, onde a água vibrava pressurizada.
Sua percepção desceu ao nível atômico. Para não serem mortos, ele precisava desviar a pressão sem explodir a cidade. Ele não usou força bruta; usou geometria e calor. Concentrou sua afinidade apenas no painel principal e numa válvula de expurgo esquecida três metros abaixo.
Calcule a fricção.
Ele injetou energia térmica diretamente nas engrenagens e travas de segurança do painel mestre. Em um instante, ele aqueceu e fundiu as placas, transformando o maquinário em um bloco maciço de aço soldando, inviolável às marretas. O estrondo da primeira pancada ressoou como um sino rachado contra a parede fundida. Era inútil bater.
Mas a pressão da tubulação de água, agora sem saída de alívio no painel travado, disparou. O cano ia estourar.
Ele redirecionou sua vontade para a válvula de expurgo secundária e corroída lá embaixo. O desgaste no corpo do garoto era instantâneo e insano. Ele estava forçando conexões atômicas a destravarem contra toneladas de pressão estática. A dor atravessou os tendões de seus braços como facas serrilhadas. Sangue começou a escorrer pelos poros das mãos.
Ainda assim, de forma consciente e implacável, ele continuou, sacrificando a própria integridade física para arrumar o caos que sua hesitação iniciara. Com um estalo doloroso de metal enferrujado se partindo, a válvula inferior cedeu.
A água rompeu por dutos secundários num jato controlável, jorrando nos cantis, baldes e no chão da sala, sem comprometer a estrutura. A Lótus não explodiu.
Atônitos com o banho de água fresca, moradores e terroristas largaram as armas e caíram de joelhos, bebendo em prantos.
Sukdo só viu o alívio deles por um instante. Seus nervos, torrados pelo esforço matemático e cinético contínuo, pararam de responder. Com os braços pendendo inutilmente pelas laterais do corpo, a escuridão engoliu sua visão, e ele despencou.
O zumbido mecânico do trem era o único som.
Sukdo abriu os olhos. O teto metálico do vagão rodava levemente. Ele estava esparramado no assento macio, suas roupas cheias de poeira e fuligem. Ao seu lado, no banco da frente, Karmena continuava caída, a respiração fraca, mas regular. O sangue em seu rosto já havia secado.
Suas mãos doíam horrores. As articulações pareciam ter sido esmagadas. Com um esforço tremendo, ele enfiou a mão trêmula por baixo da túnica suja e segurou o pingente de Valerik. Ele apertou até as bordas marcarem a pele.
Ele deveria ter prendido os terroristas de imediato. Deveria ter sido impassível.
Olhou para Karmena. Sua mestra estava caída e ferida por culpa de sua hesitação. No momento exato em que ele permitiu que a compaixão o paralisasse — ao perceber que o mundo não se dividia perfeitamente entre a lei e os monstros —, o inimigo encontrou uma brecha. A culpa esmagou seu peito.
— Mestra... — ele sussurrou, a voz embargada, os olhos fixos nela. — Eu não segui as regras.
O garoto desviou o olhar para o próprio braço direito, onde a manga havia rasgado. A dor não era apenas do esforço físico. Linhas escuras se ramificavam pela sua pele pálida, engrossando lentamente para um tom carmesim, como raízes queimando debaixo da carne.
Ele estava conquistando suas marcas vermelhas. Mas o preço do poder, percebeu ao sentir as lágrimas amargas nos olhos endurecidos, era perceber que o branco puro de sua túnica já não servia para o mundo real.