O Peso da Água

Atualizado em: 28/06/2026

Tomo I | Episódio 1: O Peso da Água

O jovem clérigo sentava-se com a coluna rígida, quase militar. Vestia a túnica branca fechada até o pescoço, suas costuras e bordados em um preto impiedoso, contrastando com a claridade que invadia a cabine do trem. As mãos, apoiadas sobre os joelhos, permaneciam perfeitamente alinhadas. Seus olhos castanhos, escuros e inquietos, voltavam-se esporadicamente para a janela, onde o céu azul abrigava o impossível: uma gigantesca Lótus Branca flutuando na altura das nuvens, um milagre da engenharia que espalhava energia limpa para as cidades lá embaixo.

À sua frente, Karmena era a imagem oposta. A mulher negra, de porte imponente e cabelos brancos soltos, estava esparramada no banco. O sobretudo branco, sem a gola sufocante que ele usava, revelava o vermelho vivo da blusa por baixo — uma escolha de vestimenta que refletia sua liberdade de clériga experiente. Ela mantinha as pernas cruzadas, a bota de cano alto exibindo um salto fino, o queixo apoiado na mão de forma indolente. Seus olhos denunciavam cansaço.

— É uma Lótus Branca — disse ela, a voz grave cortando o zumbido mecânico do trem. — Olha. Na base do cabo que desce para o solo. Estamos indo para aquela cidade.

Sukdo ajustou a gola da túnica, um movimento automático e irritante que ele repetia a cada poucos minutos.

— Mestra — invocou ele, a voz carregada de uma reverência estudada, quase ensaiada.

Karmena soltou um suspiro curto pelo nariz, os olhos nem se voltando para o garoto.

— Você é clérigo agora. Não precisa me chamar assim. Me chama de Karmena. Mestra, não.

Sukdo abriu os braços de forma contida, apontando para as próprias roupas.

— Ainda tenho minhas marcas pretas.

O sorriso de Karmena foi breve, quase melancólico. Ela apontou para a cidade que se avolumava na janela.

— Escolha o que deseja adicionar ao capítulo, sobreviva, e conquiste suas marcas vermelhas. Ali... uma boa oportunidade.

Sukdo engoliu em seco. Por baixo do tecido pesado, seus dedos apertaram o pingente de metal escondido contra o peito. A borda de ferro da lembrança de Valerik marcou a palma de sua mão, mas ele precisava daquela dor. Não vou te decepcionar, ele disse a si mesmo, em silêncio.


A praça principal fervilhava. Mesmo sendo um assentamento remoto, as coisas pareciam perfeitamente em ordem na superfície: não havia tubulações expostas nem engrenagens à mostra, apenas o design urbano limpo, verde e impecável imposto pelos Lordes Negros. A maquiagem do mundo era perfeita. Ainda assim, moradores em roupas puídas negociavam verduras e tecidos em barracas simples, sua exaustão manchando a fachada higienizada da cidade. Era uma tentativa humilde de sobreviver sob a sombra colossal do cabo branco da Lótus, que mergulhava no solo como o caule de uma flor de metal.

Sukdo sentia-se um intruso em sua túnica branca impecável.

— Sukdo — a voz de Karmena o trouxe de volta. Ela caminhava um passo à frente, os saltos finos batendo ritmadamente contra a pedra, exigindo espaço sem pedir. — Consegue ver a capela?

— Sim, seguindo a rua — ele respondeu, articulando cada sílaba.

— Ótimo — disse Karmena, parando no meio da rua movimentada. — Vá até lá e procure o irmão Elias. Diga que chegamos. Eu vou buscar informações com alguns contatos pela cidade. E garoto... não arrume problemas.

Sukdo assentiu, sentindo um peso repentino de estar desacompanhado assim que a figura imponente da clériga desapareceu na multidão.

Ele ajustou a postura e começou a caminhar em direção ao campanário descascado que marcava o fim da rua principal. O trajeto exigiu que ele desviasse de carregadores exaustos e de crianças curiosas que paravam suas brincadeiras na terra batida para observar a sua túnica imaculada. Os olhares dos civis misturavam medo reverencial e uma ponta de ressentimento. Sob o brilho ofuscante da Lótus Branca no céu, as ruas estreitas pareciam ainda mais sujas e esquecidas. Sukdo seguiu em frente de queixo erguido, apertando os punhos para disfarçar a insegurança de quem operava no campo pela primeira vez.

Quando finalmente alcançou o destino, encontrou uma estrutura modesta, espremida de forma quase invisível entre dois imensos galpões industriais de tijolos escuros. O interior cheirava a cera queimada e poeira antiga. Não havia o luxo dos grandes templos da capital, apenas bancos de madeira rústica e um símbolo da Ordem talhado grosseiramente na parede do altar, banhado pela meia-luz dos vitrais rachados.

Um homem idoso espanava os bancos. Ele vestia roupas simples de lã, sem os tecidos pesados ou as marcas vermelhas dos clérigos.

— Com licença — Sukdo pigarreou, assumindo sua postura militar. — Sou o clérigo Sukdo. A Mestra Karmena mandou avisar que chegamos. O senhor é Elias?

O velho sorriu, as rugas se aprofundando ao redor dos olhos bondosos.

— Eu mesmo, garoto. Bem-vindo. Nossa rede de informações e abrigo está sempre aberta para os Investigadores.

Sukdo fez uma reverência rígida. Ele olhou instintivamente para os braços do idoso, procurando as marcas de purificação, mas a pele enrugada estava limpa. Elias notou o olhar e soltou uma risada rouca e suave.

— Não procure por Sangue Negro em mim, garoto. Eu sou apenas um homem comum. Nunca fui tocado pelo trauma que forja vocês.

— Então por que o senhor está aqui? — Sukdo perguntou, incapaz de conter a surpresa. Em seu treinamento, os clérigos eram os guardiões, separados dos civis pelo fardo do poder e da dor. — O senhor poderia ser preso pelo Vassalo por abrigar a Ordem.

— Eu poderia — concordou Elias, o sorriso dando lugar a uma expressão endurecida. — Mas o Vassalo nos dá lama para beber e nos faz trabalhar até o osso. A Ordem dos Santos contra as Trevas não luta apenas por feitiçaria, jovem clérigo. Vocês lutam pelo projeto de libertar nosso povo. Se os clérigos arriscam a alma com a corrupção para nos salvar, o mínimo que um velho sem magia pode fazer é manter a porta aberta e o chão limpo.

Sukdo sentiu um nó na garganta. As palavras de Elias reforçavam tudo o que ele queria acreditar. A Ordem era a luz incontestável. Era por pessoas boas como aquele velho que Valerik havia morrido. E era por elas que Sukdo devia lutar, seguindo todas as regras.

Ele abriu a boca para agradecer, mas um estrondo pesado o cortou.

A vibração sacudiu o chão da capela, fazendo poeira cair do teto de madeira. Um grito agudo rasgou o ar vindo da direção da praça.

— Elias, tranque as portas! — gritou Sukdo, puxando uma espada curta debaixo de suas vestes. Ele não esperou resposta e correu em direção à luz do dia.

Ele irrompeu de volta à praça sozinho. Nos fundos, onde o pátio de acesso ao subsolo da Lótus era protegido por pesadas grades, homens encapuzados com emblemas improvisados atiravam granadas rudimentares contra as correntes. O pânico explodiu entre as barracas de comércio.

Sukdo avançou. Ele precisava ser perfeito. Brandiu a espada curta e tentou se impor, atacando o primeiro terrorista que tentava forçar a grade. Mas ele era apenas um novato. O agressor era pesado e desesperado, bloqueando a lâmina de Sukdo com um cano de ferro e empurrando o garoto para trás. Sukdo tropeçou, caindo de costas no chão. O coração acelerou. Eram muitos. Ele ia falhar.

Antes que o inimigo pudesse desferir o golpe fatal com o cano, duas esferas lisas rolaram pelo chão de paralelepípedos.

A praça foi subitamente afogada por uma densa fumaça branca. Um branco puro, opaco e cegante, típico do arsenal da Ordem.

Sukdo tossiu. No meio da névoa espessa, uma silhueta se moveu com uma velocidade que desafiava a visão humana. Era Karmena.

Ela surgiu como um fantasma letal. Um golpe seco no joelho de um agressor, um giro imobilizando o braço de outro. Ela lutava com uma coreografia brutal e implacável (Agilidade de Vesna, Sukdo percebeu), desarmando os terroristas antes que pudessem detonar a entrada.

Sukdo tentou se levantar para ajudar, balançando a arma atabalhoadamente na névoa branca, mas o metal de sua lâmina colidiu estupidamente com a lateral do braço de Karmena, que estava imobilizando o líder. Ela mal se mexeu, mas o solavanco deu a dois dos terroristas a fração de segundo necessária para escapar do estrangulamento.

Karmena estalou a língua, irritada, agarrando um terceiro inimigo pela gola e batendo-o contra a parede com força suficiente para rachar a pedra. O atentado principal havia sido esmagado em segundos.

— Atrás de mim, garoto! — ela ordenou, os olhos faiscando no meio da fumaça imaculada.

Sukdo sentiu o rosto queimar. Ele havia tentado lutar sozinho e quase morrera; havia tentado ajudar e apenas atrapalhou. A Mestra tinha salvo sua vida e impedido a destruição do cabo sozinha. Os dois terroristas que conseguiram se soltar, percebendo que a praça estava perdida, mergulharam desesperados no duto que levava ao subsolo.

— Eles vão para os painéis! — gritou Sukdo, forçando-se a agir.

Ele correu na direção do fosso, o pingente de Valerik batendo contra o peito. Karmena surgiu ao lado dele instantes depois, os olhos semicerrados em repreensão, mas ela não o impediu. Juntos, desceram as escadas circulares e escuras.

Enquanto desciam pelo túnel estreito e úmido, o silêncio denso foi quebrado pela voz vacilante de Sukdo:

— Eu tentei lutar e só atrapalhei... — ele murmurou, apertando o pingente sob a roupa. O medo de falhar o paralisava por dentro. — O treinamento diz que precisamos ser o escudo perfeito. Se eu não for, pessoas morrem, Karmena. Não sei se tenho força para carregar esse peso.

Karmena parou um instante no degrau, a luz fria de emergência delineando seu rosto cansado. Em vez de uma repreensão severa, ela o olhou buscando dar-lhe uma ferramenta real para não se quebrar.

— Você está focando no próprio ego. O peso do mundo não foi feito para as costas de um homem só. Lembre-se da Cartilha da Ordem, garoto. Livro V, Versículo 33: "A força da alma é inútil se os Moinhos continuam a esmagar os fracos... A nossa ascensão é, por decreto e sangue, coletiva". — Ela voltou a descer as escadas, a voz grave ecoando no fosso. — Não lute para ser um herói solitário e impecável, Sukdo. Lute para ser parte do todo. Essa é a sua única chance de sobreviver.


O subsolo cheirava a ozônio e suor. Não havia apenas máquinas ali. Havia dezenas de pessoas.

Uma família — um idoso de mãos calejadas, duas mulheres e algumas crianças sujas — estava organizada em volta das válvulas de pressão, enchendo cantis e baldes de plástico com água fresca e limpa que escorria dos dutos da Lótus.

Quando Sukdo e Karmena apareceram, a família não os olhou como salvadores. Eles recuaram em terror. Os dois terroristas que haviam fugido agora se escondiam atrás dos moradores, as armas apontadas para os clérigos.

Sukdo ergueu a espada curta, a voz embargada.

— Afastem-se deles! Eles são criminosos! Estão tentando destruir o cabo!

O idoso deu um passo à frente, os olhos brilhando em fúria, e cuspiu no chão, bem aos pés de Sukdo.

— Criminosos? — a voz do homem rasgou o eco metálico da sala. — O Vassalo que controla essa cidade nos dá um balde de lama por semana! A água pura da Lótus vai toda para as fábricas dele! Eles vieram explodir a comporta para que nós pudéssemos beber! Você usa branco, mas sangra pelo Vassalo!

Sukdo congelou.

Sua mente perfeita e matemática entrou em curto-circuito. Aqueles não eram monstros. Aquelas pessoas estavam morrendo de sede. Seu treinamento dizia que a Ordem deveria proteger o cabo e prender os agressores. Mas a humanidade em seu peito gritava.

O que você faria se fosse sua família, clérigo?

Sukdo não moveu um músculo. E, na guerra, hesitação é morte.

O líder terrorista, aproveitando o lapso, puxou um cilindro estranho do cinto. Sukdo reconheceu a tecnologia corrompida dos Mecânicos — um Gerador de Pulso Sônico. O homem torceu o cilindro e o arrepio no ar denunciou a ativação.

A onda invisível não atingiu Sukdo.

Karmena se jogou na frente dele. O sobretudo branco dela esvoaçou, envolvendo o corpo do garoto como uma couraça. Ela invocou a Resistência do Carvalho, sua Essência brilhando brevemente através do tecido, mas o pulso foi devastador.

A onda sônica estilhaçou os vidros da sala e reverberou nos ossos. Karmena soltou um engasgo seco e caiu de joelhos. Sangue negro escorreu por seu nariz e ouvidos, e ela tombou para o lado, inconsciente.

— Mestra! — Sukdo gritou, caindo de joelhos ao lado dela.

Os moradores e os terroristas avançaram em desespero cego para o painel de controle principal da Lótus, erguendo marretas e pés-de-cabra.

A mente matemática de Sukdo correu mais rápido que o pânico. Se quebrassem o painel principal, a tubulação mestre de três metros de diâmetro estouraria. A pressão de toneladas de água por segundo não apenas afogaria o subsolo, mas varreria as fundações da cidade acima. Todos morreriam.

Os agressores estavam a cinco metros. Quatro metros.

Você prometeu ser forte, ecoou a voz grave de Valerik. Seja o escudo.

Mas um escudo bruto não bastaria ali. Sukdo não se jogou na frente das marretas; ele se jogou sobre a própria máquina. Suas mãos espalmaram contra o aço frio do painel de controle principal e da gigantesca tubulação conectada a ele. Ele sentiu a vibração da água enclausurada. Sentiu as microfissuras no metal.

E sentiu algo mais. Três metros abaixo da tubulação mestre, uma comporta de expurgo de emergência. Estava emperrada por décadas de ferrugem.

Três metros. Eles ergueram as marretas.

Sukdo fechou os olhos. Não usou força; usou pura fricção atômica. Ele forçou sua afinidade para o interior do painel principal. O aço gemeu. Em uma fração de segundo, ele derreteu e fundiu os mecanismos de liberação da comporta mestre, soldando o painel em um bloco único de metal maciço. A primeira marretada atingiu o painel soldado e ricocheteou com um estalo ensurdecedor, entortando a ferramenta e vibrando nos braços do agressor. Era inútil. O painel principal agora era um cofre inviolável.

Mas a pressão da tubulação, subitamente sem a via de alívio do painel, começou a gritar. O cano mestre ia estourar.

A válvula de expurgo, pensou Sukdo, o sangue subindo à cabeça.

Ele redirecionou sua Vontade para as engrenagens enferrujadas abaixo. O esforço exigia uma precisão absurda. Girar o metal corroído contra a pressão massiva da água era como tentar mover uma montanha com pinças. A dor atingiu suas articulações como agulhas incandescentes. Seus ligamentos pareciam rasgar sob a pele.

Gire.

As veias de seu pescoço saltaram. O metal enferrujado rangendo em protesto.

Com um estalo agudo que ecoou por todo o subsolo, a válvula de expurgo secundária cedeu.

Um jato concentrado, mas controlável, de água pura jorrou pelos dutos inferiores, enchendo rapidamente os contêineres vazios e escorrendo pelo chão. A pressão da tubulação principal estabilizou. O estrondo diminuiu para o zumbido contínuo e seguro de antes.

A cidade estava a salvo. E as pessoas, atônitas com a água limpa abundante que jorrava à sua frente, largaram as armas e caíram de joelhos, bebendo com as mãos em concha, em prantos.

Sukdo não viu o fim da cena. O esforço mecânico excruciante de derreter e torcer metais brutos simultaneamente fritou seu sistema nervoso e rompeu vasos em seus braços. O mundo escureceu como se um interruptor fosse desligado, e o garoto desabou inerte ao lado de Karmena.


O zumbido mecânico do trem era o único som.

Sukdo abriu os olhos. O teto metálico do vagão rodava levemente. Ele estava esparramado no assento macio, suas roupas cheias de poeira e fuligem. Ao seu lado, no banco da frente, Karmena continuava caída, a respiração fraca, mas regular. O sangue em seu rosto já havia secado.

Suas mãos doíam horrores. As articulações pareciam ter sido esmagadas. Com um esforço tremendo, ele enfiou a mão trêmula por baixo da túnica suja e segurou o pingente de Valerik. Ele apertou até as bordas marcarem a pele.

Ele deveria ter prendido os terroristas de imediato. Deveria ter sido impassível.

Olhou para Karmena. Sua mestra estava caída e ferida por culpa de sua hesitação. No momento exato em que ele permitiu que a compaixão o paralisasse — ao perceber que o mundo não se dividia perfeitamente entre a lei e os monstros —, o inimigo encontrou uma brecha. A culpa esmagou seu peito.

— Mestra... — ele sussurrou, a voz embargada, os olhos fixos nela. — Eu não segui as regras.

O garoto desviou o olhar para o próprio braço direito, onde a manga havia rasgado. A dor não era apenas do esforço físico. Linhas escuras se ramificavam pela sua pele pálida, engrossando lentamente para um tom carmesim, como raízes queimando debaixo da carne.

Ele estava conquistando suas marcas vermelhas. Mas o preço do poder, percebeu ao sentir as lágrimas amargas nos olhos endurecidos, era perceber que o branco puro de sua túnica já não servia para o mundo real.